Escavar as nuvens à procura do sol
Os meus textos. Chamei a esta 'compilação' de textos "Escavar as nuvens à procura do Sol". Hope u like it =)
"Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada."
Ricardo Reis
"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes,
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."
Ricardo Reis
segunda-feira, abril 16, 2007
Aceitei. Disse-te que sim e deixei-me amar-te sem pudor ou preconceitos. Acariciei-te, beijei-te, toquei-te… Deixei-me levar inteiramente pela paixão que há tanto me sufocava. Libertei o meu coração e dei-to sem hesitar enquanto te entregava o meu corpo (e a minha vida). E tu deste-te a mim e, numa linguagem de carícias e olhares que as palavras não saberiam traduzir, disseste-me que me amavas, disseste-me para não ter medo, disseste-me que nunca me ias magoar. E eu entendi-te e agradeci-te por isso, o meu corpo a falar por mim numa mistura de sentimentos cuja intensidade os fazia explodir como foguetes num fogo de artifício, autênticas achas de uma fogueira gigante que nos consumia por dentro e por fora. E amámo-nos numa junção entre o certo e o errado, entre a paixão e a razão, entre o meu corpo e o teu. Sem pensar em nada (porque há momentos em que pensar não faz falta) recebi-te de coração aberto. Recebi tua alma, teu corpo e teu coração. Recebi a tua vida dentro da minha. E fundimo-nos. Unimo-nos um ao outro, talvez não para sempre, mas enquanto essa união fizer sentido, enquanto formos capazes de nos entregar como neste dia em que disse que sim e me elevei até ao mais alto dos céus contigo do meu lado. E voámos alto, sem pensar que poderíamos cair mais de cima, numa queda maior, mas sabendo que vimos o sol mais de perto. Juntos.
segunda-feira, novembro 06, 2006
Norte
O Norte. Perdi o norte, perdi o rumo, perdi a dimensão de mim mesma. Perdi-me. E não me encontro porque não há o que encontrar, não há o que achar, não há o que pensar. Não há nada. Foi o fim. Sem norte não há rumo, sem rumo não há caminho, sem caminho o que é que eu faço? Nada. Paro. Olho à volta. Penso. Mas já não sei pensar. Porque simplesmente já não existo. O Mundo acabou? Não. Mas eu acabei. E já não sei começar-me. Não sei recomeçar-me. Por isso paro. Escuto. Não oiço nada. Não há nada para ouvir. O que havia já não há. Alguma vez houve? Tento seguir-me mas não me vejo. Tento ver-me mas não me encontro. Tento encontrar-me mas não me sigo. Já não. Não tenho força para mais. Não há mais. Por isso não vale a pena. Já não. Mas já valeu? Não sei. Não me lembro. Não me lembro de nada. Porque não há nada para lembrar. Porque não sei quem sou. Sei? Já soube? Saberei um dia? Não sei. E não há nada para saber. Há? Se há não quero saber. Não me interessa. Já não. Interessou um dia. Acho… Não sei. E mesmo que soubesse não dizia. Porque não há nada para dizer. Afinal acabou. Ou não? Será que não? Será que há esperança? A esperança é um caminho. Um caminho é um rumo. Mas eu perdi o rumo. Perdi o norte. Então não há. Não há esperança. E se não há esperança não há nada. Porque a esperança é a última que morre. Morre… Morri? Não. Se morresse não pensava. E eu penso. Penso? Ou penso que penso? Estou confusa. Baralhei-me. Agora é que não me encontro mesmo. Já me perdi completamente. Alguma vez fui completa? Não sei. Não sei nada. Paro. Toco no ar. O ar é macio. E toca-me também. É bom sentir o ar. Esta sensação acorda-me. Encontro-me! Não… já me perdi outra vez. E agora? Agora nada. Agora espero. Esperava. Se tivesse esperança. Mas não tenho. Já não. É tarde demais. Tarde! Tarde? Não. Não é. Se fosse tarde estava atrasada. E não estou. Porque não existo. Então paro. E sinto o aroma que paira no ar em frente a mim. É doce. Cheira a doce. É bom cheirar o ar. Será o ar que cheira bem? Ou serei eu? Não. Eu não sou. Se não me encontro não me posso cheirar. Poderei? Já pude. Mas já não posso. Agora já não posso. Porque acabou. Foi o fim. Foi? Se foi o fim como é que ainda penso? Pensa-se depois do fim? Estarei eu no depois do fim? Não. Isso nem existe. Mas eu também não. Estou confusa. Baralhada. Procuro-me de novo. Não me encontro outra vez. Podia ter uma bússola. Ela mostra o norte. Mas não tenho. Por isso não conheço o norte. O rumo. O caminho. A esperança. Então paro. Paro e falo. Falo e grito. Grito até não poder mais. Grito por mim. Chamo por mim. Grito. Chamo. Canto. Até que perco a voz. Então acabou. Já não posso cantar para mim. Já não posso chamar por mim. Já não posso gritar-me a mim. Acabou. Não há nada que eu possa fazer. Há? Já não. Já houve. Haverá um dia? Talvez. Não sei. Um dia saberei. Talvez. Então aparece uma luz. (Uma luz? No fim? No depois do fim? Mas luz é esperança. Não há esperança. Não agora. Não depois do fim. Não quando já não existo. Muito menos quando já não posso existir. Seria uma luz? Talvez não fosse.) E num momento paro! Paro e olho. Paro e escuto. Paro e toco o ar. Paro e cheiro o ar (ou a mim própria). Paro e grito. Paro e penso. Paro! E sinto. E sinto-me. E entro dentro de mim. E leio-me. E desvendo os segredos que nem eu sabia que tinha. E descodifico os códigos. E percebo-me. E encontro-me. E por fim, existo. Agora sim, o fim.
Se eu fosse...
Pensei nos anos da minha escola primária. Parecem tão distantes que me sinto velha nos meus dezasseis anos. Mas como eram bons esses tempos! O que se fazia, o que se dizia… Era tudo tão mais simples!!! Até o que se escrevia! As composições na escola muitas vezes eram baseadas no título “Se eu fosse…” e depois era só a professora inventar o se eu fosse daquele dia. ‘Se eu fosse um peixe’, ‘Se eu fosse um cão’, ‘Se eu fosse uma flor’, ‘Se eu fosse uma janela’… Ás vezes tenho vontade de escrever dessas composições. Ás vezes penso no Se eu fosse e tenho vontade de ser outra coisa qualquer que não eu… Mas é aí que reside a parte má do se. Se eu fosse… mas não sou. Então mas e se nós fossemos o que realmente somos mas que não somos?
Se eu fosse…eu
Se eu fosse eu, seria mais pessimista do que sou, talvez mais triste… Mas também mais sincera. Se eu fosse eu tinha de aceitar isso e não poderia mentir a mim própria. Teria de viver com todos os meus medos e inseguranças, com tudo aquilo que sinto e não quero sentir. Porque não poderia fingir uma pessoa que não sou… Nem para mim mesma. Se eu fosse eu não poderia simplificar as coisas quando sei como elas são, não poderia tentar que tudo parecesse mais fácil e, então, a vida seria, provavelmente, mais complicada. Mas se eu fosse eu, diria mais vezes aquilo que sinto e tenho medo de dizer, não teria discussões comigo própria e não teria de pensar sobre o que sinto ou sobre o que quero fazer. E isso talvez simplificasse tudo, talvez tornasse a minha vida mais calma. Se eu fosse eu, chorava mais e vivia mais. Então, se eu fosse eu, acho que não seria eu, mas outra pessoa. Se eu fosse eu, isso traria consequências boas e más. Mas de qualquer maneira mudava-me por completo. E então deixaria de ser eu… Se eu fosse eu nem me reconheceria a mim própria. Se eu fosse… mas não sou.
Se eu fosse…eu
Se eu fosse eu, seria mais pessimista do que sou, talvez mais triste… Mas também mais sincera. Se eu fosse eu tinha de aceitar isso e não poderia mentir a mim própria. Teria de viver com todos os meus medos e inseguranças, com tudo aquilo que sinto e não quero sentir. Porque não poderia fingir uma pessoa que não sou… Nem para mim mesma. Se eu fosse eu não poderia simplificar as coisas quando sei como elas são, não poderia tentar que tudo parecesse mais fácil e, então, a vida seria, provavelmente, mais complicada. Mas se eu fosse eu, diria mais vezes aquilo que sinto e tenho medo de dizer, não teria discussões comigo própria e não teria de pensar sobre o que sinto ou sobre o que quero fazer. E isso talvez simplificasse tudo, talvez tornasse a minha vida mais calma. Se eu fosse eu, chorava mais e vivia mais. Então, se eu fosse eu, acho que não seria eu, mas outra pessoa. Se eu fosse eu, isso traria consequências boas e más. Mas de qualquer maneira mudava-me por completo. E então deixaria de ser eu… Se eu fosse eu nem me reconheceria a mim própria. Se eu fosse… mas não sou.
Olhou para a porta do McDonald’s. Respirou fundo e empurrou-a aparentando uma confiança que não sentia. Percorreu o restaurante de fast food com passos lentos, enquanto pensava o que estava ali a fazer. Que estupidez! Eu não devia estar aqui! Olhou à volta e reparou nas únicas pessoas que ocupavam a sala: uns míudos deliciados com batatas fritas e hambúrgueres que escorriam ketchup. Dirigiu-se à caixa. E agora o que é que eu vou pedir? Leu os cartazes que anunciavam as promoções e ofertas da semana. Pediu um gelado com chocolate. Voltou-se e foi sentar-se numa mesa que não precisou de escolher. Afinal tinha sido para isso que ali fora. Para se sentar ali. Naquele lugar. Aquele e mais nenhum. Pensou no que a fizera ir ali. Lembrou-se da cena que presenciara há alguns dias, naquele mesmo lugar, entre uma rapariga, que não devia ter mais de sete ou oito anos, e a mãe.
Sai daí!!! Sai!!! Oh mãe sai daí!!!
Mas queres sentar-te tu neste lugar?
Sim!!!
…
Oh mãe… sabes porque é que eu me quis sentar aqui? Porque este é o lugar onde se sentam as princesas. E é o lugar onde se sentam as meninas bonitas. E é o lugar onde se sentam as meninas que querem arranjar namorado.
Ela tinha ficado a pensar naquela certeza da rapariga de que iria arranjar namorado apenas por estar ali sentada. Ingenuidade? Talvez. Mas ao ouvir aquelas palavras, ela própria ficou presa à fantasia de encontrar alguém que gostasse dela simplesmente por se sentar ali por algum tempo. Quem sabe se não se tornaria mesmo uma princesa… Mas que parvoíce!!! Como se eu ainda tivesse idade para acreditar em histórias de princesas… e de príncipes… e de lugares mágicos. A única coisa real aqui é que estou sentada no McDonald’s, sozinha e com um gelado na mão que nem vontade tenho de comer… Mas não se levantou. Não saiu dali. Pensou na vida que tinha. Pensou nela. Pensou no que tinha conseguido, nos projectos que deixou inacabados… e nos que ainda podia acabar. Pensou nas amigas… e nos namorados delas. Entrou num mundo onde só existe o ela, onde entram em confronto todas as variantes de si mesma, onde ela consegue discutir consigo própria e entender-se… ou tentar, pelo menos. Despertou deste ‘transe’ com o barulho que se instalou repentinamente na sala. Viu o restaurante completamente cheio e estranhou não se ter apercebido da entrada de tantas pessoas. Olhou para o relógio. Era hora do almoço. Realmente, começava a sentir fome. Comeu o gelado que, já derretido, ainda segurava na mão. Enquanto sentia o chocolate dar-lhe um ânimo açucarado, observou as pessoas à sua volta. A maioria jovens. Grupos de rapazes e raparigas chegavam, provavelmente da escola, a rir e a conversar sobre os mais variados temas. Na mesa ao lado da dela, quatro raparigas discutiam opiniões sobre o penteado mais recente do rapaz mais giro da escola. À frente, um grupo de rapazes falava sobre motas. Lá fora, um casal de namorados trocava um beijo que lhe pareceu durar uma eternidade. Olhou para todas as pessoas que conseguia ver e reparou como todos estavam ali acompanhados, ocupados com conversas, diversões ou mesmo só com o almoço. Sentiu que todos estavam ali por uma razão normal menos ela. Só ela estava ali, há mais de duas horas, sozinha, à espera. Voltou a sentir fome e pediu um hambúrguer e uma Cola. Esteve ali sentada toda a tarde. Viu os míudos que foram comer gelados depois do almoço, os que foram lanchar hambúrgueres e batatas. Os míudos comem disto a toda a hora! Começou a escurecer. Pensou no que fizera. Perdera um dia inteiro sentada, à espera. Pensou como era tonta por ter feito isso e pensou que tinha de mudar… ou conformar-se por ser assim. Levantou-se e saiu ainda com o copo do gelado, sujo do chocolate, na mão. Viu um rapaz que devia ter aproximadamente a idade dela. Talvez mais um ano ou dois. Achou-o atraente e olhou para ele durante um bocado. Passado uns momentos apercebeu-se que estava a olhar fixamente para o rapaz há mais tempo que o ‘aceitável’. Então ele aproximou-se. Oh meu Deus! Ele reparou que eu estava a olhar para ele! E agora o que é que eu faço? Mas ele sorriu quando falou para ela.
Olá! Já vi que também gostas de gelado de chocolate.
Sai daí!!! Sai!!! Oh mãe sai daí!!!
Mas queres sentar-te tu neste lugar?
Sim!!!
…
Oh mãe… sabes porque é que eu me quis sentar aqui? Porque este é o lugar onde se sentam as princesas. E é o lugar onde se sentam as meninas bonitas. E é o lugar onde se sentam as meninas que querem arranjar namorado.
Ela tinha ficado a pensar naquela certeza da rapariga de que iria arranjar namorado apenas por estar ali sentada. Ingenuidade? Talvez. Mas ao ouvir aquelas palavras, ela própria ficou presa à fantasia de encontrar alguém que gostasse dela simplesmente por se sentar ali por algum tempo. Quem sabe se não se tornaria mesmo uma princesa… Mas que parvoíce!!! Como se eu ainda tivesse idade para acreditar em histórias de princesas… e de príncipes… e de lugares mágicos. A única coisa real aqui é que estou sentada no McDonald’s, sozinha e com um gelado na mão que nem vontade tenho de comer… Mas não se levantou. Não saiu dali. Pensou na vida que tinha. Pensou nela. Pensou no que tinha conseguido, nos projectos que deixou inacabados… e nos que ainda podia acabar. Pensou nas amigas… e nos namorados delas. Entrou num mundo onde só existe o ela, onde entram em confronto todas as variantes de si mesma, onde ela consegue discutir consigo própria e entender-se… ou tentar, pelo menos. Despertou deste ‘transe’ com o barulho que se instalou repentinamente na sala. Viu o restaurante completamente cheio e estranhou não se ter apercebido da entrada de tantas pessoas. Olhou para o relógio. Era hora do almoço. Realmente, começava a sentir fome. Comeu o gelado que, já derretido, ainda segurava na mão. Enquanto sentia o chocolate dar-lhe um ânimo açucarado, observou as pessoas à sua volta. A maioria jovens. Grupos de rapazes e raparigas chegavam, provavelmente da escola, a rir e a conversar sobre os mais variados temas. Na mesa ao lado da dela, quatro raparigas discutiam opiniões sobre o penteado mais recente do rapaz mais giro da escola. À frente, um grupo de rapazes falava sobre motas. Lá fora, um casal de namorados trocava um beijo que lhe pareceu durar uma eternidade. Olhou para todas as pessoas que conseguia ver e reparou como todos estavam ali acompanhados, ocupados com conversas, diversões ou mesmo só com o almoço. Sentiu que todos estavam ali por uma razão normal menos ela. Só ela estava ali, há mais de duas horas, sozinha, à espera. Voltou a sentir fome e pediu um hambúrguer e uma Cola. Esteve ali sentada toda a tarde. Viu os míudos que foram comer gelados depois do almoço, os que foram lanchar hambúrgueres e batatas. Os míudos comem disto a toda a hora! Começou a escurecer. Pensou no que fizera. Perdera um dia inteiro sentada, à espera. Pensou como era tonta por ter feito isso e pensou que tinha de mudar… ou conformar-se por ser assim. Levantou-se e saiu ainda com o copo do gelado, sujo do chocolate, na mão. Viu um rapaz que devia ter aproximadamente a idade dela. Talvez mais um ano ou dois. Achou-o atraente e olhou para ele durante um bocado. Passado uns momentos apercebeu-se que estava a olhar fixamente para o rapaz há mais tempo que o ‘aceitável’. Então ele aproximou-se. Oh meu Deus! Ele reparou que eu estava a olhar para ele! E agora o que é que eu faço? Mas ele sorriu quando falou para ela.
Olá! Já vi que também gostas de gelado de chocolate.
O Jantar
Toalha de renda e talher de prata quando há visitas; garfo à esquerda, faca e colher à direita, o copo ao topo; bases de tacho para não estragar a madeira; marcadores de lugar em dias de muita gente; a comida em travessas já que tachos não se levam à mesa; a sobremesa depois da fruta, a carne depois do peixe; uns aperitivos antes para abrir o apetite; um digestivo depois, junto com o café talvez; guardanapo de papel com visitas não se usa; guardanapo de pano fica à esquerda, usa-se no colo e deixa-se à direita; colher de sobremesa bem direita em frente ao prato; o copo maior é para a água, os outros para o vinho; vinho branco no copo mais pequeno para não aquecer. As contas da luz, do telefone, do gás; o que se pagou no talho, no supermercado, na peixaria; a novela de ontem, de hoje, do outro dia; a vida da Maria da rua de trás, do João que trabalha nas obras, da Vanessa que namora com o padeiro; a escola, as notas, os exames; as desgraças que passam no telejornal sempre que se liga a televisão; o que se faz, o que se fez, o que se tem feito; o silêncio, porque à mesa não se fala. À hora do costume; à hora que se tem fome; quando acaba a novela ou quando começa. Na cozinha; na sala de refeições; sentado no sofá; no restaurante; no quarto. Sozinho; a dois; em família; com os amigos. Romântico; de aniversário; sem motivo.
Atenções que se têm num jantar porque este diz tudo sobre nós; regras de etiqueta que delimitam a personalidade do anfitrião; conversas de jantar que demonstram o dia-a-dia da família; horários que são regras ou que não existem; companhias que podemos ter ou não; tipos de jantar que mudam tudo. Será que somos tudo o que mostramos ao jantar? Será que somos só o que mostramos ao jantar? Social porque janta com os amigos; romântico porque janta com a namorada; só porque janta sozinho. Inflexível porque tem hora marcada; desleixado porque janta quando quer. Divertido porque conta anedotas; cusco porque comenta a vida alheia; rígido porque não quer barulho à refeição. A nossa personalidade encontrada à mesa…ou não.
Cheguei a casa. Estava cansadíssima. Pousei as malas, depois de um dia exausto com dois testes, educação física, natação e, por fim, um trabalho de grupo, reparei que já passavam quinze minutos da hora do jantar. Estavam todos à mesa. Calados. Á minha espera.
O meu pai com cara de zangado por eu não ter avisado que me atrasaria; a minha mãe, compreensiva mas com medo da reacção do meu pai; a minha irmã mais velha a esforçar-se para não se rir; e o meu irmão mais novo sem perceber nada.
Sentei-me. O meu pai não reagia. A minha mãe perguntou-me a causa do atraso, ao que respondi a verdade: perdi a camioneta.
O meu pai simplesmente disse:
– Viesses a pé! – e começou a comer. Manteve aquela reacção durante todo o jantar. Sempre calado.
Só a minha irmã se riu um pouco com o Pedro (o meu irmão).
A minha mãe, durante todo o jantar, também se manteve calada mas, de quando em quando, sorria para mim. Um sorriso que eu conhecia e que queria dizer Não ligues ao teu pai. Está cansado.
Eu também estava cansada. Cansadíssima. Acabámos de jantar. Enquanto a minha irmã ajudava a minha mãe na cozinha, deitei o Pedro. De seguida deitei-me. E, quase ao adormecer, ainda senti um beijo ternurento do meu pai.
(Segunda parte escrita em 2001)
Atenções que se têm num jantar porque este diz tudo sobre nós; regras de etiqueta que delimitam a personalidade do anfitrião; conversas de jantar que demonstram o dia-a-dia da família; horários que são regras ou que não existem; companhias que podemos ter ou não; tipos de jantar que mudam tudo. Será que somos tudo o que mostramos ao jantar? Será que somos só o que mostramos ao jantar? Social porque janta com os amigos; romântico porque janta com a namorada; só porque janta sozinho. Inflexível porque tem hora marcada; desleixado porque janta quando quer. Divertido porque conta anedotas; cusco porque comenta a vida alheia; rígido porque não quer barulho à refeição. A nossa personalidade encontrada à mesa…ou não.
Cheguei a casa. Estava cansadíssima. Pousei as malas, depois de um dia exausto com dois testes, educação física, natação e, por fim, um trabalho de grupo, reparei que já passavam quinze minutos da hora do jantar. Estavam todos à mesa. Calados. Á minha espera.
O meu pai com cara de zangado por eu não ter avisado que me atrasaria; a minha mãe, compreensiva mas com medo da reacção do meu pai; a minha irmã mais velha a esforçar-se para não se rir; e o meu irmão mais novo sem perceber nada.
Sentei-me. O meu pai não reagia. A minha mãe perguntou-me a causa do atraso, ao que respondi a verdade: perdi a camioneta.
O meu pai simplesmente disse:
– Viesses a pé! – e começou a comer. Manteve aquela reacção durante todo o jantar. Sempre calado.
Só a minha irmã se riu um pouco com o Pedro (o meu irmão).
A minha mãe, durante todo o jantar, também se manteve calada mas, de quando em quando, sorria para mim. Um sorriso que eu conhecia e que queria dizer Não ligues ao teu pai. Está cansado.
Eu também estava cansada. Cansadíssima. Acabámos de jantar. Enquanto a minha irmã ajudava a minha mãe na cozinha, deitei o Pedro. De seguida deitei-me. E, quase ao adormecer, ainda senti um beijo ternurento do meu pai.
(Segunda parte escrita em 2001)
O dia do meu decesso
Olhei para os Maltesers e pensei. Pensei no dia em que tínhamos comido estes chocolates juntos pela primeira vez… e sorri. Lembrei-me dos bons momentos que passámos juntos, com um pacote vermelho, assim, igual a este, nas mãos. E lembrei-me do que ele me dizia. Ouvi a voz dele a dizer o meu nome baixinho e tentei acordar do transe… Não passava tudo da minha imaginação. Mas não consegui e imaginei ouvi-lo a dizer amo-te e nunca me vais perder naquela voz doce e deliciosa que só ele sabia fazer e que só fazia para mim. Tentei de novo retomar o que estava a fazer. Mas aquela pequenina e leve bola de leite maltado coberta com uma camada espessa de chocolate que sobrava no pacote voltou a prender-me a atenção. E pensei no último dia em que tínhamos partilhado um pacote como esse que via na minha frente. Fazia precisamente seis meses que isso acontecera. Pensei em como os Maltesers presenciaram todos os momentos importantes da nossa vida. E pensei em como nós gostávamos de recordar os bons momentos que passámos, marcados por estes chocolates, enquanto devorávamos mais um pacote a dois. E lembrei-me da última vez. Lembrei-me de nós terminarmos a conversa (e o pacote de Maltesers), antes dele ter de sair para o emprego.
Lembro-me sempre dos bons momentos que passámos juntos.
Eu também.
E sorrimos. Sorrimos um para o outro com a certeza vã que nos iríamos ver daí a algumas horas. Passado nem meia hora tocou o telefone. Era da polícia. Tinham muita pena mas tinha sido instantâneo. Já não havia nada a fazer.
Suspirei. Olhei para o ecrã do computador que continuava à espera que eu retomasse o meu trabalho. Ouvi de novo as palavras do polícia a ressoar na minha cabeça. Já não há nada a fazer. E tentei resignar-me com isso. Mais uma vez. Como em todos os minutos da minha vida nesses seis meses. Pensei nos 45 anos e meio que preenchiam a minha vida. Como esse ‘meio’ fazia toda a diferença! Era quase inacreditável. Pensei nos meus filhos. Pensei nos meus pais. Pensei na minha irmã. Pensei nos netos que queria vir a ter. Pensei como ele também gostava de os ter tido.
Pensei.
Não pensei.
Levantei-me. Foram menos de dois minutos até à sala, à varanda, à janela e para fora desta.
Voei. Por momentos senti-me voar e senti-me livre. Alguns momentos.
E acabou.
Passado nem meia hora tocou o telefone. Era da polícia. Tinham muita pena mas tinha sido instantâneo. Já não havia nada a fazer.
Foi a minha irmã quem atendeu. Tinha chegado de trazer os miúdos da escola. Eles gostavam muito dela e ela sempre nos apoiou muito depois da morte dele. E ela sempre os apoiou muito depois da minha morte.
Vi-os chorar. Vi-os perguntar porquê. Nem eu sabia. Como eu gostava de saber. Mas não sabia.
Hoje, cinco anos depois, tenho pena.
Lembro-me sempre dos bons momentos que passámos juntos.
Eu também.
E sorrimos. Sorrimos um para o outro com a certeza vã que nos iríamos ver daí a algumas horas. Passado nem meia hora tocou o telefone. Era da polícia. Tinham muita pena mas tinha sido instantâneo. Já não havia nada a fazer.
Suspirei. Olhei para o ecrã do computador que continuava à espera que eu retomasse o meu trabalho. Ouvi de novo as palavras do polícia a ressoar na minha cabeça. Já não há nada a fazer. E tentei resignar-me com isso. Mais uma vez. Como em todos os minutos da minha vida nesses seis meses. Pensei nos 45 anos e meio que preenchiam a minha vida. Como esse ‘meio’ fazia toda a diferença! Era quase inacreditável. Pensei nos meus filhos. Pensei nos meus pais. Pensei na minha irmã. Pensei nos netos que queria vir a ter. Pensei como ele também gostava de os ter tido.
Pensei.
Não pensei.
Levantei-me. Foram menos de dois minutos até à sala, à varanda, à janela e para fora desta.
Voei. Por momentos senti-me voar e senti-me livre. Alguns momentos.
E acabou.
Passado nem meia hora tocou o telefone. Era da polícia. Tinham muita pena mas tinha sido instantâneo. Já não havia nada a fazer.
Foi a minha irmã quem atendeu. Tinha chegado de trazer os miúdos da escola. Eles gostavam muito dela e ela sempre nos apoiou muito depois da morte dele. E ela sempre os apoiou muito depois da minha morte.
Vi-os chorar. Vi-os perguntar porquê. Nem eu sabia. Como eu gostava de saber. Mas não sabia.
Hoje, cinco anos depois, tenho pena.