O dia do meu decesso
Olhei para os Maltesers e pensei. Pensei no dia em que tínhamos comido estes chocolates juntos pela primeira vez… e sorri. Lembrei-me dos bons momentos que passámos juntos, com um pacote vermelho, assim, igual a este, nas mãos. E lembrei-me do que ele me dizia. Ouvi a voz dele a dizer o meu nome baixinho e tentei acordar do transe… Não passava tudo da minha imaginação. Mas não consegui e imaginei ouvi-lo a dizer amo-te e nunca me vais perder naquela voz doce e deliciosa que só ele sabia fazer e que só fazia para mim. Tentei de novo retomar o que estava a fazer. Mas aquela pequenina e leve bola de leite maltado coberta com uma camada espessa de chocolate que sobrava no pacote voltou a prender-me a atenção. E pensei no último dia em que tínhamos partilhado um pacote como esse que via na minha frente. Fazia precisamente seis meses que isso acontecera. Pensei em como os Maltesers presenciaram todos os momentos importantes da nossa vida. E pensei em como nós gostávamos de recordar os bons momentos que passámos, marcados por estes chocolates, enquanto devorávamos mais um pacote a dois. E lembrei-me da última vez. Lembrei-me de nós terminarmos a conversa (e o pacote de Maltesers), antes dele ter de sair para o emprego.
Lembro-me sempre dos bons momentos que passámos juntos.
Eu também.
E sorrimos. Sorrimos um para o outro com a certeza vã que nos iríamos ver daí a algumas horas. Passado nem meia hora tocou o telefone. Era da polícia. Tinham muita pena mas tinha sido instantâneo. Já não havia nada a fazer.
Suspirei. Olhei para o ecrã do computador que continuava à espera que eu retomasse o meu trabalho. Ouvi de novo as palavras do polícia a ressoar na minha cabeça. Já não há nada a fazer. E tentei resignar-me com isso. Mais uma vez. Como em todos os minutos da minha vida nesses seis meses. Pensei nos 45 anos e meio que preenchiam a minha vida. Como esse ‘meio’ fazia toda a diferença! Era quase inacreditável. Pensei nos meus filhos. Pensei nos meus pais. Pensei na minha irmã. Pensei nos netos que queria vir a ter. Pensei como ele também gostava de os ter tido.
Pensei.
Não pensei.
Levantei-me. Foram menos de dois minutos até à sala, à varanda, à janela e para fora desta.
Voei. Por momentos senti-me voar e senti-me livre. Alguns momentos.
E acabou.
Passado nem meia hora tocou o telefone. Era da polícia. Tinham muita pena mas tinha sido instantâneo. Já não havia nada a fazer.
Foi a minha irmã quem atendeu. Tinha chegado de trazer os miúdos da escola. Eles gostavam muito dela e ela sempre nos apoiou muito depois da morte dele. E ela sempre os apoiou muito depois da minha morte.
Vi-os chorar. Vi-os perguntar porquê. Nem eu sabia. Como eu gostava de saber. Mas não sabia.
Hoje, cinco anos depois, tenho pena.
Lembro-me sempre dos bons momentos que passámos juntos.
Eu também.
E sorrimos. Sorrimos um para o outro com a certeza vã que nos iríamos ver daí a algumas horas. Passado nem meia hora tocou o telefone. Era da polícia. Tinham muita pena mas tinha sido instantâneo. Já não havia nada a fazer.
Suspirei. Olhei para o ecrã do computador que continuava à espera que eu retomasse o meu trabalho. Ouvi de novo as palavras do polícia a ressoar na minha cabeça. Já não há nada a fazer. E tentei resignar-me com isso. Mais uma vez. Como em todos os minutos da minha vida nesses seis meses. Pensei nos 45 anos e meio que preenchiam a minha vida. Como esse ‘meio’ fazia toda a diferença! Era quase inacreditável. Pensei nos meus filhos. Pensei nos meus pais. Pensei na minha irmã. Pensei nos netos que queria vir a ter. Pensei como ele também gostava de os ter tido.
Pensei.
Não pensei.
Levantei-me. Foram menos de dois minutos até à sala, à varanda, à janela e para fora desta.
Voei. Por momentos senti-me voar e senti-me livre. Alguns momentos.
E acabou.
Passado nem meia hora tocou o telefone. Era da polícia. Tinham muita pena mas tinha sido instantâneo. Já não havia nada a fazer.
Foi a minha irmã quem atendeu. Tinha chegado de trazer os miúdos da escola. Eles gostavam muito dela e ela sempre nos apoiou muito depois da morte dele. E ela sempre os apoiou muito depois da minha morte.
Vi-os chorar. Vi-os perguntar porquê. Nem eu sabia. Como eu gostava de saber. Mas não sabia.
Hoje, cinco anos depois, tenho pena.

2 Comments:
e pronto fikei super surpreendida kando li este texto... porke é axim kem olha para ti nao tem ideia de ke escreves uns textos com tao boa kualidade..pensei ke fosses uma rapariga mais virada para as ciências...mas axo k tens futuro e k te devias informar sobre editoras ou axim porke tenho a certeza ke vao ficar interessadas no teu trabalho..continua axim que eu venho aki ler ... estou mesmo a gostar...a serio...boa sorte com a tua escrita...beijokas sÊ feliz
Fantastico...ja mo tinhas mandado e acho que fazes bem em ter um arquivo dos teus textos porque a nivel de texto narrativo es brilhante :)
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