O Jantar
Toalha de renda e talher de prata quando há visitas; garfo à esquerda, faca e colher à direita, o copo ao topo; bases de tacho para não estragar a madeira; marcadores de lugar em dias de muita gente; a comida em travessas já que tachos não se levam à mesa; a sobremesa depois da fruta, a carne depois do peixe; uns aperitivos antes para abrir o apetite; um digestivo depois, junto com o café talvez; guardanapo de papel com visitas não se usa; guardanapo de pano fica à esquerda, usa-se no colo e deixa-se à direita; colher de sobremesa bem direita em frente ao prato; o copo maior é para a água, os outros para o vinho; vinho branco no copo mais pequeno para não aquecer. As contas da luz, do telefone, do gás; o que se pagou no talho, no supermercado, na peixaria; a novela de ontem, de hoje, do outro dia; a vida da Maria da rua de trás, do João que trabalha nas obras, da Vanessa que namora com o padeiro; a escola, as notas, os exames; as desgraças que passam no telejornal sempre que se liga a televisão; o que se faz, o que se fez, o que se tem feito; o silêncio, porque à mesa não se fala. À hora do costume; à hora que se tem fome; quando acaba a novela ou quando começa. Na cozinha; na sala de refeições; sentado no sofá; no restaurante; no quarto. Sozinho; a dois; em família; com os amigos. Romântico; de aniversário; sem motivo.
Atenções que se têm num jantar porque este diz tudo sobre nós; regras de etiqueta que delimitam a personalidade do anfitrião; conversas de jantar que demonstram o dia-a-dia da família; horários que são regras ou que não existem; companhias que podemos ter ou não; tipos de jantar que mudam tudo. Será que somos tudo o que mostramos ao jantar? Será que somos só o que mostramos ao jantar? Social porque janta com os amigos; romântico porque janta com a namorada; só porque janta sozinho. Inflexível porque tem hora marcada; desleixado porque janta quando quer. Divertido porque conta anedotas; cusco porque comenta a vida alheia; rígido porque não quer barulho à refeição. A nossa personalidade encontrada à mesa…ou não.
Cheguei a casa. Estava cansadíssima. Pousei as malas, depois de um dia exausto com dois testes, educação física, natação e, por fim, um trabalho de grupo, reparei que já passavam quinze minutos da hora do jantar. Estavam todos à mesa. Calados. Á minha espera.
O meu pai com cara de zangado por eu não ter avisado que me atrasaria; a minha mãe, compreensiva mas com medo da reacção do meu pai; a minha irmã mais velha a esforçar-se para não se rir; e o meu irmão mais novo sem perceber nada.
Sentei-me. O meu pai não reagia. A minha mãe perguntou-me a causa do atraso, ao que respondi a verdade: perdi a camioneta.
O meu pai simplesmente disse:
– Viesses a pé! – e começou a comer. Manteve aquela reacção durante todo o jantar. Sempre calado.
Só a minha irmã se riu um pouco com o Pedro (o meu irmão).
A minha mãe, durante todo o jantar, também se manteve calada mas, de quando em quando, sorria para mim. Um sorriso que eu conhecia e que queria dizer Não ligues ao teu pai. Está cansado.
Eu também estava cansada. Cansadíssima. Acabámos de jantar. Enquanto a minha irmã ajudava a minha mãe na cozinha, deitei o Pedro. De seguida deitei-me. E, quase ao adormecer, ainda senti um beijo ternurento do meu pai.
(Segunda parte escrita em 2001)
Atenções que se têm num jantar porque este diz tudo sobre nós; regras de etiqueta que delimitam a personalidade do anfitrião; conversas de jantar que demonstram o dia-a-dia da família; horários que são regras ou que não existem; companhias que podemos ter ou não; tipos de jantar que mudam tudo. Será que somos tudo o que mostramos ao jantar? Será que somos só o que mostramos ao jantar? Social porque janta com os amigos; romântico porque janta com a namorada; só porque janta sozinho. Inflexível porque tem hora marcada; desleixado porque janta quando quer. Divertido porque conta anedotas; cusco porque comenta a vida alheia; rígido porque não quer barulho à refeição. A nossa personalidade encontrada à mesa…ou não.
Cheguei a casa. Estava cansadíssima. Pousei as malas, depois de um dia exausto com dois testes, educação física, natação e, por fim, um trabalho de grupo, reparei que já passavam quinze minutos da hora do jantar. Estavam todos à mesa. Calados. Á minha espera.
O meu pai com cara de zangado por eu não ter avisado que me atrasaria; a minha mãe, compreensiva mas com medo da reacção do meu pai; a minha irmã mais velha a esforçar-se para não se rir; e o meu irmão mais novo sem perceber nada.
Sentei-me. O meu pai não reagia. A minha mãe perguntou-me a causa do atraso, ao que respondi a verdade: perdi a camioneta.
O meu pai simplesmente disse:
– Viesses a pé! – e começou a comer. Manteve aquela reacção durante todo o jantar. Sempre calado.
Só a minha irmã se riu um pouco com o Pedro (o meu irmão).
A minha mãe, durante todo o jantar, também se manteve calada mas, de quando em quando, sorria para mim. Um sorriso que eu conhecia e que queria dizer Não ligues ao teu pai. Está cansado.
Eu também estava cansada. Cansadíssima. Acabámos de jantar. Enquanto a minha irmã ajudava a minha mãe na cozinha, deitei o Pedro. De seguida deitei-me. E, quase ao adormecer, ainda senti um beijo ternurento do meu pai.
(Segunda parte escrita em 2001)

1 Comments:
Este ja te tinha dito que era o meu favorito... adorei todo o desenrolar da cena :) AMEI :)
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