Norte
O Norte. Perdi o norte, perdi o rumo, perdi a dimensão de mim mesma. Perdi-me. E não me encontro porque não há o que encontrar, não há o que achar, não há o que pensar. Não há nada. Foi o fim. Sem norte não há rumo, sem rumo não há caminho, sem caminho o que é que eu faço? Nada. Paro. Olho à volta. Penso. Mas já não sei pensar. Porque simplesmente já não existo. O Mundo acabou? Não. Mas eu acabei. E já não sei começar-me. Não sei recomeçar-me. Por isso paro. Escuto. Não oiço nada. Não há nada para ouvir. O que havia já não há. Alguma vez houve? Tento seguir-me mas não me vejo. Tento ver-me mas não me encontro. Tento encontrar-me mas não me sigo. Já não. Não tenho força para mais. Não há mais. Por isso não vale a pena. Já não. Mas já valeu? Não sei. Não me lembro. Não me lembro de nada. Porque não há nada para lembrar. Porque não sei quem sou. Sei? Já soube? Saberei um dia? Não sei. E não há nada para saber. Há? Se há não quero saber. Não me interessa. Já não. Interessou um dia. Acho… Não sei. E mesmo que soubesse não dizia. Porque não há nada para dizer. Afinal acabou. Ou não? Será que não? Será que há esperança? A esperança é um caminho. Um caminho é um rumo. Mas eu perdi o rumo. Perdi o norte. Então não há. Não há esperança. E se não há esperança não há nada. Porque a esperança é a última que morre. Morre… Morri? Não. Se morresse não pensava. E eu penso. Penso? Ou penso que penso? Estou confusa. Baralhei-me. Agora é que não me encontro mesmo. Já me perdi completamente. Alguma vez fui completa? Não sei. Não sei nada. Paro. Toco no ar. O ar é macio. E toca-me também. É bom sentir o ar. Esta sensação acorda-me. Encontro-me! Não… já me perdi outra vez. E agora? Agora nada. Agora espero. Esperava. Se tivesse esperança. Mas não tenho. Já não. É tarde demais. Tarde! Tarde? Não. Não é. Se fosse tarde estava atrasada. E não estou. Porque não existo. Então paro. E sinto o aroma que paira no ar em frente a mim. É doce. Cheira a doce. É bom cheirar o ar. Será o ar que cheira bem? Ou serei eu? Não. Eu não sou. Se não me encontro não me posso cheirar. Poderei? Já pude. Mas já não posso. Agora já não posso. Porque acabou. Foi o fim. Foi? Se foi o fim como é que ainda penso? Pensa-se depois do fim? Estarei eu no depois do fim? Não. Isso nem existe. Mas eu também não. Estou confusa. Baralhada. Procuro-me de novo. Não me encontro outra vez. Podia ter uma bússola. Ela mostra o norte. Mas não tenho. Por isso não conheço o norte. O rumo. O caminho. A esperança. Então paro. Paro e falo. Falo e grito. Grito até não poder mais. Grito por mim. Chamo por mim. Grito. Chamo. Canto. Até que perco a voz. Então acabou. Já não posso cantar para mim. Já não posso chamar por mim. Já não posso gritar-me a mim. Acabou. Não há nada que eu possa fazer. Há? Já não. Já houve. Haverá um dia? Talvez. Não sei. Um dia saberei. Talvez. Então aparece uma luz. (Uma luz? No fim? No depois do fim? Mas luz é esperança. Não há esperança. Não agora. Não depois do fim. Não quando já não existo. Muito menos quando já não posso existir. Seria uma luz? Talvez não fosse.) E num momento paro! Paro e olho. Paro e escuto. Paro e toco o ar. Paro e cheiro o ar (ou a mim própria). Paro e grito. Paro e penso. Paro! E sinto. E sinto-me. E entro dentro de mim. E leio-me. E desvendo os segredos que nem eu sabia que tinha. E descodifico os códigos. E percebo-me. E encontro-me. E por fim, existo. Agora sim, o fim.

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